ARTIGO
Fora a cultura da mediocridade!
Jael Soares

          Dentre as versões para a criação da palavra “cultura”, há a que credita o feito a Edward Tylor, que teria criado-a unindo duas outras (‘kultur’ e ‘civilization’), e a que diz que “cultura” adveio do latim. De qualquer modo, independendo da derivação etimológica, esta palavra refere-se às expressões materiais e imateriais cultivadas pelos homens. Contudo, parece não ser esse o significado dado por, principalmente, as mídias.
          Nelas, apresenta-se a cultura com o significado voltado para as artes e para o entretenimento em geral (às vezes ainda para o saber acadêmico), supondo-se, então, que a política, os esportes, a economia e outras áreas não são partes da cultura de um povo. E o preconceito e a hipocrisia também fazem descartar aspectos que são tão nossos quanto pensamos.
          No Nordeste, um erro comum entre os defensores do Pé-de-serra é pensar que bandas de Forró Estilizado não são culturais. Ora, se há um bom tempo elas estão no mercado, são cultivadas de alguma forma, não? Todavia, é evidente que nem tudo nessas bandas é cultural, como o Forró que fazem. Estranho? Explico: o Forró Estilizado, em essência, não é Forró “de verdade”. Grupos, tal Saia Rodada e Aviões do Forró, usam zabumba, triângulo e sanfona, mas os sufocam com instrumentos de Axé, com guitarras de Rock Pop, batidas de Funk, etc. Então, não encerram um estilo de Forró, logo que não cultivam características. Por outro lado, um aspecto cultural é a libertinagem desses grupos – afinal, se nossa sociedade se regesse pela própria moral legal, não ouviria certas pragas.
          Isentar-se desses e outros aspectos culturais é o mesmo que dizer que a sociedade não tem poder para decidir e agir. Pensar assim pode implicar em sérios problemas, como, por exemplo, achar que o sistema político não é cultural, não é ligado e dependente da vivência e organização de milhões de brasileiros; dizendo respeito a apenas um grupo de pessoas lá em Brasília – pessoas estas que podem, assim, fazer o que bem entenderem com o sistema.
          É engraçado, pois, além das mídias, os governos adoram ostentar as repartições que tratam de artes populares e folclóricas com o título de "Secretaria de Cultura". O que quer dizer: "O povo fica com a arte ('Cultura'), que a política é dos parlamentares". Sem contar que a maioria dos investimentos para esta tal Cultura não visam exatamente a perpetuação de simbologias importantes, mas, sim, a transformação das artes em fósseis vivos. E vale dizer que, por vezes, elas se sustentam sem mais motivos para existir; arrastando-se apenas pelo fator econômico. Porém, isto não vem ao caso agora.
          Vê-se aqui um zoológico: as pessoas pagam para ver os bichos, mas não podem cuidar deles. E é por isso que eu grito: "Fora a cultura da mediocridade!", porque eu tenho medo de alimentar os animais.

          
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